Na manhã de sábado, a Praça da Sé já cheira a café coado e madeira recém-entalhada. Entre a Catedral e o fluxo de turistas que descem da estação de metrô, 47 barracas formam um corredor de artesanato que muita gente do centro trata como extensão da calçada de casa. Em junho de 2026, a feira completa 30 anos — e quem está lá desde o começo tem história para contar que não aparece em nenhum folder da prefeitura.

Dona Zefa, de 78 anos, vende vasos de cerâmica com o mesmo padrão de flor que a mãe dela vendia em 1996, quando a feira ainda era um grupo informal de artesãos que se encontrava sem autorização fixa. "A gente vinha de madrugada, montava e rezava para não chover", ela lembra, rindo. Hoje ela ocupa o mesmo número de barraca — 12 — e conhece de vista os funcionários da guarda municipal que fazem a ronda.

De barraca improvisada a ponto de encontro

A feira foi formalizada em 1996, depois de meses de reunião entre artesãos, representantes da associação de comerciantes locais e a administração regional. O acordo inicial previa 30 barracas, funcionamento apenas aos sábados das 8h às 17h e taxa simbólica de manutenção. Trinta anos depois, o número de barracas quase dobrou, mas o horário e o espírito de sábado de manhã permanecem.

João Pedro Mendes, de 45 anos, trabalha com entalhe em madeira de reflorestamento. Ele entrou na feira em 2003, quando ainda dividia barraca com o tio. "O centro mudou muito. Teve reforma da praça, obra de metrô, pandemia. A feira fechou três meses em 2020, mas voltou porque o público cobrou", conta. Segundo ele, metade dos clientes regulares mora em bairros como Brás, Bom Retiro e Santa Efigênia — gente que vem comprar presente ou simplesmente passear.

"Não é só vender peça. É conversar, tomar café, saber que o Seu Geraldo ainda está bem depois da cirurgia."

O que tem nas barracas

O acervo da feira mistura tradição e invenção contemporânea. Há rendeiras do litoral paulista que viajam toda semana de ônibus, ceramistas do interior que aprenderam o ofício com avós, e uma geração mais jovem que usa técnicas digitais para estampar tecido, mas vende presencialmente porque, nas palavras da artesã Bia Rocha, "cliente quer tocar antes de levar".

Os preços variam bastante. Pequenos chaveiros de couro saem por R$ 25; peças maiores de cerâmica podem passar de R$ 400. A feira não tem preço tabelado — cada artesão define — mas existe um acordo informal de não subir valores em época de festa sem avisar com antecedência, para não quebrar a confiança de quem compra há anos.

Desafios de manter a feira viva

Nem tudo é festa. Artesãos reclamam da falta de cobertura adequada em dias de chuva forte e da concorrência com produtos industrializados vendidos como "artesanato" em lojas próximas. A associação que representa a feira enviou ofício à prefeitura pedindo toldos retráteis e iluminação para o período de inverno, quando escurece mais cedo. Até a data desta reportagem, não houve resposta formal.

Há também a pressão imobiliária no entorno. Dois prédios comerciais foram reformados nos últimos cinco anos, e o aluguel subiu nas redondezas. Alguns artesãos que moravam no centro migraram para a zona leste e agora acordam às 5h para montar barraca. "Se a gente não vier, a praça vira só passagem", diz João Pedro.

Programação dos 30 anos

Para marcar o aniversário, a associação organizou três sábados especiais em junho. No dia 14, haverá demonstração de renda de bilro ao vivo; no dia 21, oficina gratuita de pintura em cerâmica para crianças; e no dia 28, um sarau com músicos que se apresentam regularmente na região. A entrada é livre, e os artesãos prometem café compartilhado a partir das 9h — tradição que começou quando alguém trouxe uma garrafa térmica para um vizinho de barraca e nunca mais parou.

Se você nunca visitou, a dica dos frequentadores é chegar cedo: às 8h30 ainda dá para conversar sem pressa. Depois das 11h, o fluxo de turistas aumenta e as conversas ficam mais curtas. E não tenha vergonha de perguntar quem fez a peça e de onde veio a técnica — essa é a parte que os artesãos mais gostam de contar.

Para outras histórias de mobilização comunitária na cidade, leia sobre o mutirão de limpeza no Grajaú ou a biblioteca comunitária de sábado em escola municipal.