A sala 14 da E.M. Profª Lúcia Mendes cheira a papel antigo e café passado na garrafa térmica — cheiro que, para quem entra pela primeira vez, lembra biblioteca de bairro dos anos 1990. Não é nostalgia acidental: a biblioteca comunitária que funciona ali aos sábados foi montada em menos de dois meses com doações de livros usados, estantes recicladas e mão de obra voluntária de professores e pais.

O horário é das 9h às 13h. Não há carteirinha complicada: basta apresentar documento com foto e endereço na região. Cada leitor pode levar até dois livros por empréstimo de 14 dias. Para quem prefere ler no local, há mesas, cadeiras e uma almofada no canto infantil.

Como tudo começou

A professora de português Cláudia Ribeiro teve a ideia no início de 2026, depois de perceber que muitos alunos não tinham livros em casa além dos didáticos. "A escola tinha uma sala com armários vazios. Perguntei na reunião de pais se alguém tinha livro parado em casa. Em uma semana encheram o porta-malas de três carros", conta.

A direção da escola apoiou o projeto e liberou a sala aos sábados, desde que houvesse adulto responsável e lista de presença. O sindicato dos professores municipais não se opôs, desde que a participação fosse voluntária — o que, nas palavras de Cláudia, "já era o que a gente pretendia".

O acervo hoje

Em junho, o acervo ultrapassou 1.200 títulos. Há literatura infantil, quadrinhos, romances, biografias, livros de receita e uma prateleira inteira de não ficção para adultos — incluindo obras de autores brasileiros contemporâneos doados por uma livraria independente do bairro vizinho.

Os voluntários catalogaram os livros em planilha compartilhada. Não é sistema sofisticado, mas funciona: cada exemplar tem etiqueta com código e categoria. Devoluções atrasadas geram lembrete amigável por WhatsApp, não multa. "A ideia é circulação, não punição", explica o pai voluntário Marcos Oliveira, que ficou responsável pela logística de empréstimo.

"Meu filho pegou três livros no primeiro sábado. No segundo, já queria ficar no clube de leitura. Eu fiquei surpreso."

Clube de leitura infantil

O clube reúne crianças de 7 a 11 anos das 10h às 11h30. A capacidade é de 15 participantes por encontro, e há lista de espera desde a terceira semana de funcionamento. A dinâmica mistura leitura em voz alta, desenho e conversa sobre o texto. No último sábado de maio, o livro escolhido pelas crianças foi uma coleção de contos folclóricos brasileiros.

As professoras Fernanda e Juliana alternam a mediação. Elas não recebem por isso, mas dizem que o retorno aparece na segunda-feira, quando os alunos chegam à sala de aula comentando o enredo. "Leitura deixa de ser tarefa e vira assunto de corredor", diz Fernanda.

Quem pode usar

A biblioteca é aberta a moradores da região, não apenas a famílias da escola. Na primeira manhã de funcionamento, 34 pessoas passaram pela sala; no quinto sábado, o número já passava de 80. Idosos que moram sozinhos apareceram para ler jornal velho em espiral e conversar com os voluntários. Jovens do ensino médio usam o espaço para estudar em silêncio quando a mesa da cozinha em casa está cheia.

A escola vizinha já perguntou se pode replicar o modelo. Cláudia e Marcos prepararam um guia simples de cinco páginas com passos: mapear sala ociosa, fazer campanha de doação, definir escala de voluntários, combinar regras com a direção. O documento será publicado pela Voz do Terreiro na próxima semana.

Como ajudar ou visitar

Doações de livros em bom estado são aceitas às sextas-feiras, das 15h às 17h, na portaria da escola. Voluntários para plantão de sábado podem se inscrever na lista mantida pela associação de pais. O endereço exato e o telefone de contato estão disponíveis na secretaria da unidade — a redação optou por não publicar aqui para evitar exposição desnecessária de dados de escola pública, mas moradores da região encontram a informação no mural da entrada.

Projetos comunitários como este aparecem com frequência em nossa cobertura. Veja também o mutirão de limpeza no Grajaú e a feira de artesanato da Praça da Sé. Para sugerir outras iniciativas educacionais, escreva para a redação.